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Espanto – Resenha

Resenha do livro “Espanto!”, de Flávia Côrtes,
por Alexandra Vieira de Almeida (Crítica Literária)

O poema que abre o livro dialoga com Drummond, que no poema deste autor fala do anjo torto, do lado gauche e desconcertad…o. Aqui, Flávia Côrtes amplia o diálogo acrescentando todas as diferenças em expansão como algo lindo. Utilizando o mote de Drummond, a autora fala do anjo lindo que abarca a totalidade de todas as diferenças. Pois o “próprio” nos equaciona como nossa identidade que se apaga no gesto do amor, na lei da unidade. O anjo diz: “Te conto, não, menina, vá você descobrir!” Nestes versos, vemos a lei do mistério que é a essência das religiões. Lidar com o desconhecido é o cerne de nossa humanidade que busca perceber o vazio da incógnita com o véu da linguagem. Esta sim imperadora no homem. E a linguagem se movimenta aqui como palavra poética, que diz o indizível, que apresenta para nós o mistério das coisas, das pessoas, do mundo, enfim. Como disse Mario Quintana, no seu texto “Pausa”, o objetivo do autor é propor enigmas para o leitor. Aqui, anjo lindo de que fala Flávia não seria a inspiração e ela a poeta que vai descobrir através das entrelinhas do pensamento caótico os melhores versos a serem descobertos também pelo leitor, também o ouvinte do anjo? Porque aqui, autor e leitor se casam, o eu-lírico é ao mesmo tempo criador e criatura que escuta do anjo a mensagem artística.

Como bem definido na quarta capa do livro, o espanto vindo das filosofias antigas como admiração pelo mistério do mundo, aqui, a admiração da poeta é pelo próprio mistério do amor. Este dificilmente definido por várias versões em “O banquete”, de Platão.  A autora em “Bússolas” se acerca do mistério com perguntas que eliminam a precisão das coisas, os esquemas lógicos e fáceis, as perguntas batidas e já desgastadas pela filosofia como “onde”, “o que” e “como”. Ela nos apresenta uma quebra de expectativas ao falar do enigma maior, o enigma do Amor com a pergunta “com Quem”. Mistério este que nos enlaça na identificação do ser que é por isto mesmo a identificação da palavra. Ser e palavra no jogo labiríntico do seu poema.

A poeta também tem maestria ao lidar com as palavras. No poema “Apaixonada”, ela faz um jogo com o sufixo “mente” dos advérbios, mesclando o processo de pensamento e verdade com o lado da mentira. Os céticos duvidam da mentira das coisas estabelecidas. Se ela se diz apaixonada no início, esta mesma paixão pode ser posta em dúvida pelo ceticismo do eu-lírico que desdiz no corte das palavras a precisão do mundo. Ao mesmo tempo diz sobre a fragmentação da paixão, pois como disse Bauman, o amor nos tempos atuais é líquido, difuso. Se desmente uma situação inicial, o ceticismo é quebrado pela própria linguagem poética, que mostra que a paixão é possível, crível no terreno da poesia que imita a vida em dimensão plural. Drummond aparece aqui novamente, agora não seria aqui ele não seria o anjo lindo de que fala a poeta no seu poema “Profecia? Ele não seria fonte de inspiração para Flávia Côrtes.

Em “Cética”, parece-nos à primeira vista que o eu-lírico desacredita do amor, mas é uma miragem, um jogo com a percepção do leitor. Fernando Pessoa, num de seus heterônimos, Alberto Caieiro, desacredita do pensar, da cultura ocidental. Mas ele mesmo se desdiz, pois “Há metafísica bastante em não pensar em nada”. A poeta acredita fielmente no amor não como uma crença religiosa, fanática, mas com sua própria reflexão, pois o erotismo segundo Bataille nos diferenciaria da sexualidade meramente animal, justamente a partir da imaginação, da linguagem e do pensamento. O erotismo de Flávia é justamente este admirar filosófico que lança o desafio sobre as verdades fundamentais.

O paradoxo antes de se fazer linguagem é corpo, realidade, matéria. É neste poema “Temporal” que a poeta nos diz isto. A figura de linguagem tão bem utilizada pela escritora ganha ares de profundidade ao unir fala-corpo sem cair na antítese fácil da dialética binária; mas cria um paradoxo rico ao falar do fora e do dentro, do corpo e da alma. Pois estes não são separados como a lógica estruturalista proporia. Este paradoxo entre delicadeza e aspereza, entre luz e sombra, também aparece no poema “Encaixe”.

Em “Memória do corpo”, a poeta nos fala da origem, do pré-inaugural. Se os pré-socráticos buscavam a origem de tudo nos elementos da natureza, no cosmos, a poeta busca a origem de tudo numa interiorização, no dentro que não se afasta do fora. Flávia busca a origem de tudo nos gestos de amor, em Eros, que nos direciona para o que é caótico, pré-formal, sem a lógica formal que aprisiona o homem em frascos daninhos: “A boca conhecia o gosto antes do beijo? O corpo sabia do calor antes do toque”. E a escritora continua com este paradoxo corpo/alma em “Minuto e Milímetro” quando a pele do corpo prende os pensamentos dos amantes. O que está fora e o que está dentro não se separam antiteticamente como no binarismo falso. O pensamento se inscreve no corpo, a linguagem do corpo é pensamento e o pensamento tem vida, corpo.

“Espanto”, poema-título do livro nos leva a problematizar o mundo, se somos desalmados por não ter sensibilidade com a dor do outro. O que causa espanto nesta poeta sensível são os apelos do mundo, a apatia frente aos desesperos do mundo. Karel Kosik no primoroso ensaio, “O século de Grete Samsa”, ao abordar o livro “A metamorfose”, de Kafka, fala-nos que na época moderna não há mais possibilidade do trágico, de nos sensibilizarmos com a dor do outro. O trágico foi trocado pela sensação de catástrofe. E as coisas que nos abalavam nos fez acostumar com a barbárie do mundo. Tudo é rotineiro. Repetitivo. Comum. Aqui, a poeta parece dizer: Alto lá. Essa não sou eu. Ainda há salvação neste mundo estranho e sem compaixão.

Ainda há a possibilidade de se espantar e de se admirar.

 

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Maiores informações: contato@poetaflaviacortes.com.br

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Textos devidamente registrados na Biblioteca Nacional e protegidos quanto aos seus direitos autorais

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