//
Crônicas
  • Esta é uma pequena seleção das centenas de textos da Poeta.
  • Outros links: PoemasProsas, Devaneios e Contos
  • Textos devidamente registrados na Biblioteca Nacional e protegidos quanto aos seus direitos autorais.


Poesia Falada: Confira tudo sobre o CD no link Verso em Voz
Maiores informações: contato@poetaflaviacortes.com.br

 

Crônicas
Então, te digo o que eu acho…

 

Exemplos

Minha mãe me doou muitas coisas nesses muitos anos de aprendiz.  Sim,  porque filhos são aprendizes. Com sorte, aprendizes de seus Pais. Se a  Vida assim não permitir, aprendizes da Vida mesmo – que mais cedo ou  mais tarde adota todos os filhos, de qualquer forma.

Não vou discorrer aqui sobre todo o riso, toda a serenidade, toda a  eletricidade ou todo o amor que minha mãe imprimiu em mim em todos  estes anos. Nem vou contar das lições de Humanidade pontilhadas nos
meus dias desde sempre.

Hoje, conto para vocês só do Exemplo Feminino. Conto do tanto de  mágico que foi ver, nos incontáveis dias de minha infância, aquela  dona de casa se arrumando logo cedo: perfume, batom e vestido  para o expediente de mãe e esposa.

Foi minha mãe que me ensinou, por exemplo, que perfume é algo que se  passa porque é bom da gente mesma sentir o cheiro. Levou anos para eu perceber que a gota atrás da nuca nunca faltou.

Minha mãe, neste ano, faz 70 anos. E você pode chegar na sua casa a  qualquer hora do dia que vai encontrá-la em lavanda e vestido. Os 40%  de perda óssea que a Osteoporose roubou de seu esqueleto e os quase  50% de capacidade pulmonar que a Enfisema levou do seu fôlego a impedem  de algumas coisas. Mas só algumas. Não consegue mais, por exemplo,  curvar-se, depois do banho, para o ritual diário de lixa e creme nos  pés.

Semana passada, meus pais vieram passar uns dias aqui em casa. E eu  descobri que meu pai, aos 72 anos, cuida dos pés da minha mãe, com  lixa, creme e conversa e, enquanto faz isso, leva nos olhos Lavanda.

Meu pai me doou muitas coisas nesses muitos anos de aprendiz. Hoje, eu contei para vocês só o Exemplo Masculino.

Meu avesso também é direito.

Dia desses, uma amiga cobrou-me explicações sobre as minhas incoerências. Difícil resposta essa. É mais umas daquelas coisas tão complicadas de explicar que fujo da resposta com um sorriso. Cansa-me um pouco explicações antecipadamente incompreendidas. Prefiro guardá-las comigo.

É que tem a questão da intensidade. E tem a coisa da vontade.

Não sei viver as coisas de outra forma que não seja muito. Faço intensamente. Vivo inteiramente. Sofro profundamente. Meu riso não é metade. Meu choro não é contido. Se me fecho, eu tranco. Se me abro, eu mostro. Eu me permito. Me perco na minha vontade e nela também me encontro. Meu gozo é onda.

Tem sempre um sorriso chegando ou saindo. Ou, então, grudado nos olhos.  Mas vivo as minhas tristezas. Plenamente. E, às vezes no mesmo dia, as guardo.

Eu choro a minha lágrima para fora. Se você nunca viu é porque preciso de privacidade para chorar. Preciso de liberdade para me derramar. Irrita-me um pouco esse ímpeto que as pessoas têm de secar a lágrima e interromper o pranto. Se um dia eu chorar na sua frente, não me consola, vai. Ou chora comigo ou, então, me abraça. Mas me deixa chorar.

Eu acho sempre com muita propriedade. Coerente, articulada, decidida, equilibrada. Não fosse a vontade… nem sempre o que eu quero é igual ao que eu acho.

Decido que espero você me ligar. E espero. Até a vontade de ouvir a sua voz me fazer quebrar o protocolo. E quebro. Acho melhor não te contar de mim. E não conto. Até você me olhar por dentro, desse jeito que você faz, e me dar essa vontade de te dizer. E digo. Resolvo que não faço. E não faço. Até a vontade me encontrar de novo. E faço. Sei que é melhor não te deixar ir além. E não deixo. Até a vontade chegar de mansinho. E peço.

A dupla face não é máscara. É o meu avesso. Mas sou eu.

O nome dela é Ana Júlia

Confesso que o que me chamou a atenção nela foi o laço no cabelo. Um laço pequeno, cor de rosa choque, enfeitando o cabelo curtinho e penteado. Olhos risonhos no rosto sério, como se estar triste fosse tarefa árdua e recomendada.

“Tia, me dá um dinheiro prá eu comprar leite pro meu irmão?”

O bebê no colo da menina dormia serenamente, alheio ao tumulto em frente à galeteria onde eu esperava a minha vez de comprar frango para o almoço de domingo.

Pousei os olhos na menina. Não tinha mais de 12 anos. Pensei se o bebê era filho ou irmão. Reparei na roupa limpa e arrumadinha. E no laço cor de rosa.

Perguntei num sussurro, como quem se aproxima de passarinho que pousa perto de manhazinha: “Ele é seu irmão, menina?”

A menina assentiu com a cabeça.

“Cadê a sua mãe?”

O dedo indica a esquina. “Tá ali com os meus irmãos.”

“Vocês são quantos?”

“Oito.”

“Você é a mais velha?”

“Não. Tem dois grandões.”

“Olha, dinheiro eu não te dou, não. Mas, se você quiser, eu te compro um frango. Você quer?”

O sorriso se abriu deixando, enfim, o rosto combinar com os olhos.

“Quero! Aí eu arrumo um guaraná e já dá prá gente almoçar.”

“Então, espera que eu compro o frango prá você.”

A menina esperou do meu lado, brincando com o bebê, agora acordado, como se fosse uma boneca. Conversava com ele alguma coisa que só os dois escutavam. E pareciam se entender bem.

“Olha só como ele entende, Tia…. Ju.. Ju…”

O neném arregalava os olhos quando ela o chamava pelo nome.

“Qual o seu nome, menina?”

“Ana Júlia.”

“Bonito nome.”

“Obrigada!”

Achei a menina educadinha.

“Você tá na escola, Ana Júlia?”

Negou com a cabeça… “Eu não tenho registro.”

Chegou a minha vez. Pedi os frangos. O meu e o da Ana Júlia. Comprei os refrigerantes. O meu diet, o dela normal. Pedi para embrulhar separado e entreguei o dela.

“Escuta, Ana Júlia, deixa eu te dizer uma coisa. Na escola você não tem só estudo, você tem merenda. Eles te dão almoço e lanche. Se um dia você passar em frente a uma escola, entra e procura a diretora. Conta para ela que você quer estudar e não tem registro. Ela vai te ajudar, tá? Toma. Este é seu”. Entreguei o almoço a ela.

“Obrigada, Tia.”

O “obrigada” era pelo frango. Eu queria que fosse pelo conselho. Queria que fosse porque eu olhei para ela como “Ana Júlia”, não como um número. Mas era pelo frango. Não tinha como ser por outra coisa além do frango. Que menino ou menina, de qualquer lugar, pensa em estudar ou em conversar quando está com fome?

Pensei na estatística oficial: mais de 95% das crianças brasileiras nas escolas. Está bem! 95% das crianças registradas. Como saber das milhares que transitam pelas ruas e simplesmente não têm registro. Estão fora das estatísticas.

O nome dela é Ana Júlia. E ela não é um número.

O que é que você quis dizer com isso?

Dia desses, eu estava conversando com um novo amigo sobre a forma tão diferente de homens e mulheres verem as coisas.

É verdade, somos muito diferentes, mesmo. E, com certeza, poderíamos elencar uns 1.500 assuntos dentro desse tema.

Mas, hoje, resolvi falar apenas de um deles: a forma de se comunicar.

que acontece é que a mulher insinua, mostra, muitas vezes, ao invés de dizer.

E temos alguma dificuldade de entender que os homens, em geral, querem dizer exatamente aquilo que eles estão dizendo.

Se uma mulher diz para um homem que não pode sair hoje porque precisa ir ao supermercado urgentemente, que não tem absolutamente nada em casa e não sobrevive a mais um dia sem fazer compras, acredite, ela está dizendo que não quer sair com ele. Ou pelo menos que não quer sair com ele hoje. Por que? Ah, pode ser por um montão de coisas. Falta de interesse no rapaz? Talvez. Mas pode ser também muito trabalho, menstruação, TPM, unha sem fazer… Não tente adivinhar, é praticamente impossível. Alguma chance da despensa estar realmente vazia? Claro que sim. Mas nenhuma mulher viva sobre a face da terra já deixou de ir a um encontro com alguém que esteja interessada exclusivamente porque o sabão em pó acabou.

Agora, se um homem diz que não quer conversar porque está vendo o jogo, pode escrever aí, ele está vendo o jogo mesmo. E tem total incapacidade de assistir ao jogo e conversar ao mesmo tempo. Ele não está dizendo absolutamente nada além disso que isso.

O que complica as relações é um fica tentando adivinhar o que é que o outro está querendo dizer, por trás do que foi realmente dito.

Então, os homens ficam tentando adivinhar o que a gente quer dizer com aquilo e acabam se irritando conosco por conta disso. Relaxem, rapazes! Não vai adiantar tentar adivinhar. E, pelo amor de Deus, não cometa a loucura e a indelicadeza de perguntar! Como é que eu conto que estou com a unha do pé enorme ou que não passo na depiladora há um mês?!

E as mulheres ficam tentando entender o que ele quer dizer com aquilo e acabam se magoando desnecessariamente. Relaxem, meninas, ele quis dizer exatamente o que disse.

Então, como fazemos?

Bem, eu recomendaria aos meninos refazer o convite em um ou dois dias. Rapaz, se ela estiver interessada em você, já resolveu absolutamente tudo e vai aceitar de imediato. Se não aceitar, parta para outra.

E às meninas? Deixe isso para amanhã, querida. E, por favor, dá um desconto, você não é menos importante que o jogo. Apenas vai estar ali no dia seguinte e o jogo acaba daqui há 90 minutos. Ah, e não invente de conversar depois do jogo. Se o time dele perder, estará de mau humor. Se o time dele ganhar, vai querer ir comemorar com os amigos. Amanhã vocês conversam, caramba. O que é tão urgente que não possa esperar até amanhã?  Ah, e se ele não quiser conversar amanhã? Bem, você pode perguntar (com suavidade, pelo amor de Deus) por que ele não quer conversar com você. Pode anotar aí, o que ele responder é exatamente o que ele está dizendo, tá?

Bem, não estou aqui para dar a chave do entendimento entre homens e mulheres, mas acho que em todas as relações, inclusive entre homens e mulheres, um pouco de leveza e aceitação do outro sempre ajuda!

Universos Femininos e Masculinos – precisam mesmo ser paralelos?

 Recebi hoje um texto de um amigo dissertando sobre incoerências, constâncias e inconstâncias femininas… discussão pertinente neste ano em que O Dia da Mulher teve realmente destaque nas conversas que ouvi no escritório, em restaurantes, em crônicas e entrevistas… um tantinho mais até que em outros anos.

Compreensivelmente, o texto que recebi expressava certa irritação com as feministas de plantão nesse moderno século vinte e um… e alguma natural incompreensão com as incoerências e pluralidades femininas.

Compartilho com meu amigo a opinião sobre o Feminismo – que já teve seu papel em outros tempos, certamente. Mas que chega aos dias de hoje, pelo menos no ocidente, não apenas sem função como também como algo absolutamente irritante.  Que me perdoem as feministas, mas prefiro ser feminina. E, antes que centenas de mulheres me achem louca, aproveito para afirmar que não é apenas o Feminismo que me irrita… mas todos os outros “… ismos” a que apropriadamente intitulamos “correntes de pensamento”. Bem, meu pensamento vive muito melhor sem correntes.

Quanto à pluralidade… acho isso uma coisa boa.

Claro que não estou falando aqui de atitudes incoerentes de mulheres inseguras e carentes. Para tais atitudes, peço a todos alguma compreensão com a insegurança e carência humanas, que devem motivar igualmente incompreensíveis atitudes masculinas. Por favor, rapazes, não rotulem a todas nós mulheres de incoerentes e inconsistentes porque encontraram alguns seres humanos inseguros em seu caminho. Prometo a mesma condescendência com o equivalente masculino.

Relevemos, portanto, os desatinos desses seres humanos, homens e mulheres, que vagam pela vida procurando a felicidade com uma fôrma na mão… como se gente se encaixasse tão bem assim em quadradinhos pré-concebidos, pré-sonhados, pré-definidos. Pai, eles não sabem o que procuram.

Exercitemos, juntos, um olhar mais condescendente e curioso sobre o outro. Sejamos, todos nós, apenas seres humanos normais, agindo e reagindo de acordo com o instinto e vontade, norteados por valores e sentimentos.

Não estou falando em inconstância!

Falo da liberdade de poder ser de acordo com a intenção, de acordo com a confiança que temos no outro. Bem, se o outro muda, porque nossas reações deveriam ser exatamente as mesmas sempre?

Falo em viver de acordo com a situação. E, se as situações mudam, por que nossas atitudes precisariam ser exatamente iguais?

Falo em seguir de acordo com a nossa vontade e com respeito ao outro e a nós mesmos. E, se nossas vontades mudam, como poderíamos agir exatamente da mesma forma sempre?

Permitamo-nos, portanto, não como homem ou mulher, mas como seres humanos, a pluralidade.

Por que achar estranho que homens adorem comemorar e competir juntos e que se batam e se xinguem, no calor da competição… para, em seguida, sentarem-se, dando risada entre uma cerveja e outra? Só porque, se duas de nós alterarmos a voz uma com a outra, como os vemos fazer em jogos, nunca mais seremos as mesmas juntas? Somos diferentes… que bom.

Por que estranhar que um homem queira uma mulher feminina e romântica, mas que também goste de ser seduzido, instigado, provocado? Se também queremos fazer amor dando beijo na boca e olhando nos olhos… e adoramos ouvir bobagens no ouvido e transar de roupa e tudo em cima da mesa da sala. Somos semelhantes… que bom.

Por que achar esquisito que eles não gostem de perguntar o caminho? Só porque nosso senso de direção inexiste e algumas de nós conseguem se perder até dentro do estacionamento do shopping? Somos diferentes… que bom.

Gostamos sim de ser protegidas e cuidadas… ainda que não precisemos, no cotidiano, que nos cuidem. Eles gostam, sim, de serem cuidados em pequenos gestos cotidianos, ainda que não precisem.  A gente cuida e se deixa cuidar não por necessidade, mas por carinho, por vontade. Cuidar, como deixar-se cuidar, é ato de entrega ao outro. Somos semelhantes… que bom.

Gostamos, sim, que se preocupem se chegamos bem em casa, diferente deles, que odeiam isso. E, exatamente como eles, nos irritamos quando controlam a hora em que chegamos ou deixamos de chegar, quando ultrapassam a tênue linha entre o zelo e a desconfiança. Somos semelhantes… que bom.

Então, despeço-me hoje fazendo minhas as palavras de meu amigo, e desejando a todos dias de união e aceitação entre homens e mulheres.

E completo: exercitar a aceitação e troca, acreditem, pode ser interessante e divertido.  E, sob o olhar de quem te aceita, ainda que não te entenda, todos nós somos sempre mais livres e felizes.

======================================================
Poesia Falada: Confira tudo sobre o CD no link Verso em Voz

Maiores informações: contato@poetaflaviacortes.com.br

======================================================

Textos devidamente registrados na Biblioteca Nacional e protegidos quanto aos seus direitos autorais.

Discussão

Nenhum comentário ainda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

Arquivos

%d blogueiros gostam disto: